E caralho, Eu queria ficar…

Sim, eu já soube da novidade. Soube que tens alguém. Logo hoje. Logo num daqueles dias em que eu queria poder ligar-te e dizer-te a falta que tens feito. Logo hoje, em que o vazio resolveu tomar conta de tudo e, afinal, era para ti que eu queria correr quando doesse. Para te contar do dia corrido. Dos problemas do trabalho. Das coisas pequenas. Das coisas que me pesam. Para te contar que hoje estou noutro lugar. E que, supostamente, agora era para estar tudo bem por aqui. Afinal, tu estiveste. Acompanhámos tanta coisa tão perto. E às vezes eu olho para trás e penso… O que me faltou? O que nos faltou? O que é que não conseguimos curar a tempo, para hoje voltar a doer desta maneira? Eu torço para que estejas feliz. Mesmo que ainda passe pelos lugares onde íamos, espero que esses sejam precisamente os lugares que tu mais evitas. Porque eu quis ficar. Meu Deus, como eu quis ficar. E nem sei por onde me expressar sem voltar a partir-me toda. Entre as desculpas e o meu coração mole, que sempre acabava por ceder, percebi que talvez isto já nem fosse sobre ti. Talvez fosse sobre mim. Sobre o acumular. Sobre sentir-me um tanto faz na tua vida enquanto tu continuavas a ser tanto dentro da minha. Foram textos gigantes para ti. Choro engasgado. Palavras ditas depressa demais. Desespero por qualquer coisa que me fizesse perceber que, afinal, tu ainda estavas aqui. Mas o nada… Porra. O nada foi o que mais doeu. Era falar contigo e sentir que tu estavas noutro planeta. Em qualquer lugar. Menos comigo. E talvez tenha sido aí que alguma coisa dentro de mim morreu antes de eu conseguir admitir. Por isso, fechei a porta. E apertei a maçaneta com força, como quem ainda esperava que alguém a abrisse do outro lado. Porque eu queria ficar. Eu queria mesmo. Queria que soubesses que eu quis muito ficar. Mas entre o que eu sentia e aquilo que recebia, foi crescendo uma coisa que nenhum amor devia ter de carregar. A desconfiança. A frieza. O silêncio. E agora perguntam-me o que vem depois de ti. Eu não sei. Neste momento, não vejo um futuro sem ti. Vejo tudo cinzento. Frio. Triste. Como se o mundo tivesse perdido a cor justamente onde eu ainda te procurava. Não sei se o que me espera algum dia vai conseguir parecer-se com aquilo que deixei para trás. Mas sei que tive medo. Medo do desconhecido. Medo de descobrir quem sou sem nós. Medo de aceitar que, às vezes, amar alguém não é razão suficiente para continuar a morrer aos bocados dentro da mesma história. E talvez eu precise mesmo de sentir esta dor. De uma vez. Sem fugir. Porque dói muito ir quando tudo em nós ainda quer ficar. Mas há uma voz cá dentro que já não pede. Apenas diz não podes continuar assim. Nós sabemos quando chega a hora de partir. Sabemos. Mesmo quando fingimos que não. Sabemos quando alguém ultrapassa todos os limites do nosso desespero. E eu acho que o erro nunca foi a mágoa. Tudo bem. Aconteceu. Nós magoámo-nos tantas vezes que quase fizemos da dor uma linguagem nossa. O erro foi não termos querido tratar o sangramento das feridas que fomos deixando mutuamente. Foi continuarmos a chamar amor àquilo que já precisava de ser cuidado. E agora estou aqui. Rasgada em pedaços. Com a garganta cheia de coisas que já não te vou dizer. E com uma certeza que me dói mais do que qualquer outra. Eu queria ficar. Caralho, eu queria ficar. Mas vim embora. E talvez seja essa a parte mais fodida de todas. Não fui embora porque deixei de sentir. Fui embora porque me sentir assim já me estava a destruir. E entre o “não é nada” e o “e se for?”, eu finalmente percebi ! Ás vezes, o que nos salva não é ficar. É ter coragem de ir embora mesmo quando tudo em nós ainda grita para ficar.


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