E, caralho… eu fiquei.


Hoje quero agradecer-me. Não à mulher que aparece bonita nas fotografias. Não à que sorri quando lhe perguntam se está tudo bem.
Não à que aprendeu a dizer eu consigo mesmo quando, por dentro, já não sabia de onde tirar forças. Quero agradecer à mulher que ninguém viu. À mulher que roda o mundo e o relógio como se tivesse oito braços e nenhum direito a parar.
Que trabalha, cuida, resolve, corre, limpa, segura, cala, protege. Que acorda cansada e, mesmo assim, levanta-se. Que chora escondida para que ninguém tenha de lidar com as lágrimas dela e depois lava a cara e continua. Quero agradecer-me por todas as vezes em que tive motivos suficientes para desistir e, ainda assim, não me abandonei. Porque eu já fui casa para quem me deixou sem chão. Já fui colo quando também precisava de colo. Já fui forte por pessoas que nem sequer perceberam o preço que essa força me custava. Já engoli palavras para não me destruir. Já calei dores para não preocupar. Já sorri com o coração em ruínas. Já cheguei ao limite e ainda encontrei mais um bocadinho de mim para dar. E houve dias em que ninguém percebeu.
Ninguém viu o peso. Ninguém viu o medo. Ninguém viu quantas vezes eu quis simplesmente parar o mundo durante cinco minutos e dizer: “agora alguém que cuide de mim.” Mas eu vi. Eu estava lá. E é por isso que hoje me agradeço. Agradeço-me por não ter deixado que aquilo que me fizeram defenisse  quem eu seria. Por ainda conseguir amar depois de me terem ensinado a desconfiar. Por ainda conseguir sentir depois de tantas coisas me terem endurecido. Por continuar a acreditar em mim quando houve pessoas que fizeram questão de me fazer duvidar. Agradeço-me por ter aprendido que ser forte não é não cair. É cair e levantar sem deixar que a queda nos convença de que nascemos para ficar no chão. Eu rodei o relógio. Rodei problemas, contas, responsabilidades, despedidas, noites mal dormidas e dias em que o corpo ia para um lado e a alma ficava para trás. E mesmo assim, não verguei. Podem ter-me partido pedaços. Podem ter-me roubado versões minhas. Podem ter levado pessoas, sonhos, certezas e até alguma da minha inocência. Mas não conseguiram levar-me de mim. E talvez essa seja a minha maior vitória. Ainda estou aqui. Mais cansada, talvez. Mais desconfiada, certamente. Com cicatrizes que ninguém vê e algumas que já nem tento esconder. Mas aqui.
E quando um dia alguém perguntar como consegui atravessar tudo isto, talvez eu não tenha uma resposta bonita. Talvez diga apenas … Não sei. Só sei que, quando ninguém veio salvar-me, eu aprendi a salvar-me sozinha. Por isso, hoje não quero agradecer a quem ficou. Nem a quem foi. Nem a quem me amou. Nem a quem não amou. Nem a quem me feriu. Hoje quero agradecer-me a mim!  À mulher que carregou demasiado e ainda assim continuou a amar. À mãe que se levantou mesmo quando precisava que alguém a levantasse. À mulher que fez do medo combustível. À pessoa que tantas vezes se sentiu pequena, mas nunca aceitou viver de joelhos. Obrigada, Filipa. Por todas as vezes em que ninguém te aplaudiu. Por todas as batalhas que venceste em silêncio. Por todas as noites em que choraste sem testemunhas e, na manhã seguinte, voltaste a pôr o mundo a funcionar. Obrigada por não teres vergado. Porque talvez o mundo nunca venha a saber quantas vezes estiveste prestes a cair. Mas tu sabes. E eu espero que, daqui para a frente, quando olhares para ti, não vejas apenas tudo aquilo que ainda falta conquistar. Olha para a mulher que sobreviveu a tudo aquilo que um dia achou que não sobreviveria. Essa mulher és tu. E, caralho… Que orgulho eu tenho de nós.

✍️ Por Filipa


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