E caralho, tu foste …

Há amores que acabam. E há amores que vão embora, mas deixam a porta aberta dentro de nós, como se uma parte deles tivesse esquecido de sair. Tu foste. E eu fiquei a aprender a viver numa casa onde ainda havia o teu cheiro. Fiquei com frases que nunca chegaram a ser ditas, com perguntas que já não têm para quem ser feitas e com aquela merda de memória que aparece nos sítios mais estúpidos, nas músicas mais inesperadas, nos minutos em que o silêncio fica demasiado alto. Fiquei com o corpo a lembrar-se de ti muito depois de a cabeça ter percebido que já não havia nada para salvar. E isso não foi o pior.
Não foi perder-te sequer ! Foi continuar a encontrar-te em mim depois de te perder. Porque eu não perdi apenas uma pessoa. Perdi a versão de mim que existia quando acreditava que tu ficarias. E ninguém fala disso. Ninguém fala da violência silenciosa de ter de desmontar um futuro que construíste na cabeça com alguém que já nem está lá. Tive de aprender a não esperar o teu nome no ecrã. A não procurar a tua cara no meio das pessoas. A não pensar “gostaria disto”. A não guardar coisas para te contar. A não imaginar como seria se tivéssemos feito diferente. E, sobretudo, tive de aceitar que algumas histórias não acabam porque deixam de existir sentimentos. Acabam porque, às vezes, amar alguém não chega para impedir que duas pessoas se percam. E eu amei-te. Porra, se amei. Amei-te de uma maneira que me deixou marcas onde ninguém consegue ver. Daquelas que não sangram, mas doem quando alguém toca demasiado perto. Hoje já não te peço para voltares. Nem quero que voltes só porque um dia me amaste.
Há portas que, depois de fechadas, deixam de ser entrada. Passam a ser cicatriz. Mas se um dia te lembrares de mim, lembra-te disto. Eu não fui o amor que passou pela tua vida sem deixar nada. Eu fui aquele que te amou até ao ponto de ter de aprender a sobreviver à tua ausência. E talvez seja essa a coisa mais fodida de todas. Tu foste embora. Mas uma parte de mim ficou para sempre naquele lugar onde nós ainda existíamos.


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