
Há uma tristeza que ninguém vê. Não é aquela que se explica com lágrimas. Nem aquela que aparece numa fotografia ou numa frase triste. É pior. É aquela que acorda comigo. Que se senta ao meu lado quando estou rodeada de pessoas. Que me acompanha mesmo quando tento rir. É uma tristeza tão funda que, às vezes, torna-se física. Dói no peito. Dói respirar. Dói pensar. Dói existir dentro de uma cabeça que não se cala. E o mais assustador é que ninguém percebe. Porque eu continuo a aparecer. Continuo a responder.
Continuo a fazer aquilo que esperam de mim. Mas há dias em que sinto que estou a carregar o peso de uma vida inteira dentro do peito. E ninguém vê as vezes que me vou abaixo em silêncio. Ninguém vê o esforço que faço para parecer normal quando, por dentro, tudo em mim está cansado de lutar. Há uma tristeza em mim que já não pede para ser resolvida. Só queria, por uma vez, não ter de fingir que não dói. Porque dói. Dói mais do que consigo escrever. E talvez seja isso que assusta, continuar aqui. Enquanto, por dentro, sinto que me estou a perder aos poucos. E o assustador nem é esta tristeza. É perceber que já me habituei a viver com ela. A acordar cansada sem ter descansado. A sorrir sem sentir vontade. A dizer “está tudo bem” enquanto, por dentro, tudo em mim pede socorro. E ninguém percebe.
Porque as pessoas veem-me viva. Mas não veem quantas partes de mim ficaram pelo caminho. Não veem as noites em que me perdi dentro dos meus próprios pensamentos. Não veem o silêncio que grita dentro de mim. Não veem o quanto custa continuar quando já não sei exatamente o que estou a tentar salvar. E talvez um dia percebam.
Talvez um dia olhem para mim e digam que não imaginavam. Mas a verdade é que eu dei sinais. Só que algumas dores são tão silenciosas que o mundo só as ouve quando já é tarde demais. E eu tenho medo. Medo de um dia olhar para mim própria. E já não encontrar nada para salvar.

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