Só que eu já não sei onde me deixei.

Há qualquer coisa em mim que se partiu sem fazer barulho. E talvez seja isso que me dói. Ninguém ouviu nada. Ninguém viu o momento exato em que a minha cabeça deixou de ser casa e passou a ser labirinto. O instante em que os pensamentos começaram a correr uns atrás dos outros, sem saída, sem descanso, sem sequer me perguntarem se eu ainda tinha forças para os acompanhar. Eu penso até me doer o silêncio. Penso no que foi. No que podia ter sido. No que nunca vou saber. Penso em palavras que já não posso devolver e em respostas que chegaram tarde demais. Penso tanto que, às vezes, já nem sei se estou a lembrar-me de alguma coisa ou se estou simplesmente a inventar novas formas de me magoar. E há noites em que o meu próprio pensamento me parece uma sala sem janelas. Fico ali. A respirar devagar, como quem tem medo de fazer demasiado barulho dentro de si. O coração continua a bater, mas há dias em que parece fazê-lo apenas por hábito. E eu continuo. Essa é talvez a parte cruel. Continuo a levantar-me. Continuo a falar. Continuo a tentar sorrir quando é preciso. Ninguém imagina a quantidade de coisas que uma pessoa consegue esconder atrás de um “estou bem”. Há uma versão de mim que ainda aparece todos os dias. Mas eu sei que não é a mesma. A verdadeira ficou algures pelo caminho, entre aquilo que perdeu e aquilo que teve de engolir para conseguir seguir em frente.
E agora carrego-me como quem carrega uma coisa partida nas mãos. Com cuidado, com medo, sem saber onde tocar para não doer. Às vezes queria apenas cinco minutos de silêncio dentro da minha cabeça.
Cinco minutos sem perguntas. Sem memórias. Sem “e se”. Sem aquela voz insistente a lembrar-me tudo aquilo que tentei esquecer. Porque ninguém fala sobre o cansaço de ter de ser forte quando, por dentro, tudo em nós pede apenas para dar uma pausa. Eu não quero que tenham pena de mim. Nem quero que me salvem. Só queria que alguém percebesse que há dores que não choram. Há dores que aprendem a sorrir. Há dores que vão trabalhar, respondem a mensagens, fazem planos e dizem “até amanhã”. E depois, quando ninguém está a olhar, sentam-se no escuro e tentam perceber em que momento deixaram de se sentir vivas por dentro. Talvez seja isso o que ninguém vê. Eu não estou só perdida porque não sei para onde ir. Estou perdida porque já não sei qual de todas as versões de mim devo e quero levar comigo. E há qualquer coisa de profundamente triste em perceber que, às vezes, a pessoa que mais precisamos de encontrar. Somos nós. Só que eu já não sei onde me deixei.


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