Continuar a andar, até que um dia deixe de doer olhar para trás.

Há uma parte de mim que está a tentar ir em frente. Não porque esteja pronta. Não porque já não dói. Não porque tenha encontrado finalmente paz. Estou a tentar ir porque ficar onde estou tornou-se demasiado doloroso. E talvez seja isto que ninguém percebe quando me dizem “Tu vais conseguir.” Às vezes não sabemos se vamos conseguir. Às vezes levantamo-nos sem força. Respiramos sem vontade. Sorrimos sem sentir. Continuamos sem sequer saber para onde estamos a ir. E eu tenho-me sentido assim. Perdida dentro de uma vida que, de repente, é muito complexa. Sempre acreditei que, quando alguém é verdadeiro contigo, tu consegues sentir. Sempre achei que a transparência tinha peso. Que as palavras tinham significado. Que aquilo que parecia certo… era certo. Acreditei demasiado. Acreditei que não existia maldade onde eu via carinho. Acreditei que não existiam intenções escondidas onde eu via sinceridade. Acreditei que estava segura num lugar que, afinal, já estava a desabar por baixo dos meus pés. E depois aconteceu. Aquela facada que não faz barulho quando entra, mas que muda tudo quando percebes que estás a sangrar. Não é apenas aquilo que aconteceu. Foi perceber que aquilo que eu achava verdadeiro talvez nunca tivesse sido tão transparente como eu acreditava. Foi olhar para trás e começar a questionar momentos que, antes, tinham um significado… e que agora parecem outra coisa. Foi perceber que, enquanto eu estava a confiar, talvez houvesse coisas que eu não via. E isso derrubou-me. Derrubou-me de uma forma que nem sei explicar. Porque há dores que conseguimos contar. Mas há outras que simplesmente nos atravessam. Não sabemos explicar onde doem. Não sabemos dizer porque doem tanto. Só sabemos que acordamos diferentes. Que alguma coisa dentro de nós ficou no chão e que, por mais que tentemos, não conseguimos voltar a ser exactamente quem éramos antes. Eu estou a tentar ir. Mas a verdade? Eu não sei para onde. Não sei qual é o caminho. Não sei o que vem depois disto. Não sei como se recomeça quando aquilo que nos fazia sentir seguros desaparece sem avisar. Só sei que não posso continuar a viver dentro daquilo que me destruiu. E talvez seja isso que mais me angustia. Ter de sair de um lugar sem saber onde vou chegar. Ter de largar algo mesmo quando as minhas mãos ainda tremem. Ter de aceitar que algumas certezas morreram… e continuar viva depois delas. Tem sido duro. Muito mais duro do que consigo mostrar. Porque há dias em que eu pareço bem e ninguém imagina a batalha que travo para não cair. Há dias em que consigo falar, rir, fazer tudo aquilo que é suposto fazer… E, mesmo assim, existe uma parte de mim completamente em silêncio, a perguntar-se: ” E agora ? ”  E eu não tenho resposta. Não sei como se continua depois de perceber que aquilo em que acreditávamos talvez não fosse aquilo que pensávamos. Não sei como se volta a confiar quando uma verdade se transforma numa dúvida. Não sei como se segue em frente quando o chão desapareceu e ainda estamos a tentar perceber como é que caímos. Mas estou a tentar. Mesmo triste. Mesmo angustiada. Mesmo sem rumo. Mesmo com esta sensação inexplicável de ter perdido algo que eu ainda nem consigo colocar em palavras. Estou a tentar. Porque talvez ir em frente não seja, afinal, saber exactamente para onde vamos. Talvez seja apenas ter coragem de não ficar onde nos partiram. E eu ainda estou partida. Não vou fingir que não. Ainda há coisas que me derrubam. Ainda há pensamentos que me apertam o peito. Ainda há momentos em que tudo o que aconteceu volta à minha cabeça e eu sinto novamente aquela facada. Não no corpo, mas naquele lugar dentro de mim onde antes existia confiança. Mas talvez um dia eu olhe para trás e perceba que não foi o fim. Talvez isto tenha sido apenas o momento em que a vida me obrigou a abrir os olhos. Mesmo que tenha doído. Mesmo que me tenha destruído. Mesmo que eu ainda esteja aqui, sem saber bem quem sou depois disto. Por agora, não prometo estar bem. Não prometo estar forte. Não prometo saber o que estou a fazer. Só prometo uma coisa. Não vou ficar para sempre no lugar onde me perdi. Mesmo que eu tenha de ir devagar. Mesmo que chore pelo caminho. Mesmo que, durante muito tempo, ande sem saber para onde. Porque há uma diferença entre não saber para onde vamos… E continuar a escolher andar. E, neste momento, isso é a única coisa que eu consigo fazer. Dar um passo. Depois outro. Com o coração pesado. Com a alma cansada. Com medo. Sem respostas. Sem certezas. Mas ir. Porque, depois de tudo aquilo que me derrubou, talvez a única coisa que ainda me resta seja esta. Continuar a andar, até que um dia deixe de doer olhar para trás.


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