Não sei exatamente em que momento te tornaste uma ausência. Talvez tenha sido no primeiro silêncio que doeu mais do que devia. Talvez na primeira vez em que tive tanto para te dizer e percebi que já não fazia sentido. Ou talvez tenha sido naquele dia em que olhei para trás e percebi que estava sozinha a tentar segurar algo que precisava de duas mãos. Hoje não te escrevo para pedir que voltes. Nem para te culpar. Escrevo porque há coisas que precisam de ser ditas uma última vez antes de serem enterradas. Tu foste importante. Mais do que alguma vez admiti. Houve uma altura em que o teu nome cabia nos meus planos, nas minhas certezas, nas coisas que eu dizia sem pensar, “um dia”. Hoje já não digo. Hoje aprendi a falar no passado de coisas que ainda vivem dentro de mim. E isso é estranho. Porque há pessoas que partem e levam apenas os seus passos. Outras levam lugares inteiros. Depois delas, certas músicas deixam de ser apenas músicas. Certos sítios deixam de ser apenas sítios. Certas horas do dia tornam-se difíceis sem que ninguém perceba porquê. E ninguém sabe. Ninguém vê. As pessoas olham para nós e acham que estamos bem porque aprendemos a sorrir com aquilo que nos falta. Mas há noites em que o silêncio sabe exatamente onde tocar. E nessas noites, percebo que algumas feridas não precisam de sangue para provar que ainda estão abertas. Eu quis ficar. Essa é a verdade que mais me custa admitir. Quis ficar mesmo quando já não sabia se havia lugar para mim. Quis acreditar mesmo quando todas as certezas já tinham desaparecido. Quis esperar mesmo quando esperar começou a parecer uma forma lenta de me abandonar a mim própria. E talvez tenha sido esse o meu maior erro. Ter acreditado durante demasiado tempo que aquilo que era verdadeiro para mim também precisava de ser verdadeiro para ti. Não foi. E finalmente aceitei. Não porque deixou de doer. Mas porque percebi que há dores que não desaparecem quando insistimos nelas.
Apenas aprendem o nosso nome. Por isso, não vou pedir explicações. Não vou perguntar onde foi que tudo se perdeu. Não vou perguntar se alguma vez pensaste em fazer diferente. Há perguntas que, mesmo respondidas, já não conseguem reconstruir nada. E eu não quero mais reconstruir. Quero aprender a viver sem procurar pedaços de uma história que já acabou em cada pessoa, em cada rua, em cada noite. Quero voltar a ser inteira.
Mesmo que uma parte de mim tenha ficado para sempre naquele tempo em que ainda acreditava. Se um dia te lembrares de mim, não quero que te lembres das lágrimas. Lembra-te de alguém que te deu o melhor que sabia dar. Alguém que ficou até não conseguir mais. Alguém que, mesmo ferida, ainda encontrou forças para amar. Mas não voltes. Por favor. Não apareças quando finalmente estiver a aprender a fechar a porta. Não me devolvas palavras quando eu já tiver aprendido a viver com o silêncio. Não me ofereças migalhas de um lugar onde um dia eu teria dado tudo. Porque desta vez, mesmo que me doa. Eu não vou abrir! Não porque não significaste nada. Mas precisamente porque significaste demasiado. E algumas pessoas precisam de ser deixadas para trás não porque foram esquecidas. Mas porque continuar a levá-las dentro de nós começa a impedir-nos de continuar a viver. Então vai. Leva tudo o que é teu. Sem culpa. Sem promessas. Sem olhar para trás. Eu também vou. Só que talvez demore um pouco mais. Porque há momentos em que continuar a lutar por alguém deixa de ser amor e passa a ser abandono de nós próprios. E eu abandonei-me demasiado tempo. Agora acabou! Não existe um “talvez”. Não existe um “um dia”. Não existe uma porta entreaberta à espera que te arrependas. Existe apenas isto. Desta vez, sou eu que fecho a porta. E mesmo que passes a vida inteira a bater. Já não haverá ninguém do outro lado.

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