Por dentro Aos gritos!

Há gritos que ninguém ouve. Eu não sei explicar o que se passa dentro de mim. E talvez essa seja a pior parte. Não saber explicar a dor, mas sentir que ela está em todo o lado. No peito. Na garganta. Na cabeça. Nas noites que não acabam. Nos silêncios que fazem mais barulho do que qualquer palavra. Há dias em que sinto que estou simplesmente perdida dentro de mim. Como se tivesse andado tanto, lutado tanto, aguentado tanto, que a certa altura, deixei de saber onde fiquei pelo caminho. E eu tenho saudades. Saudades que doem.
Saudades de pessoas. De momentos. De versões minhas que já não existem. Tenho saudades de coisas que nunca mais vão voltar e, por mais que tente aceitar isso, há uma parte de mim que continua sentada à espera. À espera de quê? Nem eu sei. Talvez de um milagre. Talvez de um pedido de desculpa. Talvez de alguém que volte e diga que também sentiu a minha falta. Talvez apenas de mim. Porque, no meio de tanta coisa que perdi, acho que a pessoa de quem tenho mais saudades. Sou eu. É de mim. E isso destrói-me. Porque há uma versão minha que sabia rir sem pensar no que vinha depois. Uma versão minha que não desconfiava de cada gesto. Que não carregava rancor no coração.
Que não precisava de fingir que estava bem só para ninguém fazer perguntas.
Agora existe esta. Esta pessoa cansada. Rendida. Desolada. Cheia de coisas por dizer, mas sem vontade de falar com ninguém. Porque como é que se explica uma dor que não tem um nome? Como é que se pede ajuda quando nem sabemos do que precisamos? Há dores que não pedem para ser curadas. Pedem apenas para alguém perceber que elas existem.
E eu acho que ninguém percebe. Ninguém vê verdadeiramente. Veem-me a andar. Veem-me a falar. Veem-me a sorrir. Veem-me a continuar. Mas ninguém vê quantas vezes eu me sinto a desaparecer por dentro. Ninguém vê o esforço que faço para não desabar. Ninguém vê as conversas que tenho comigo própria quando tudo fica em silêncio.
Ninguém ouve o barulho que existe dentro de uma pessoa que já chorou tanto que, às vezes, nem lágrimas consegue encontrar. Eu tenho mágoa.
Tenho uma mágoa funda. Daquelas que não passam com o tempo porque o tempo apenas ensina a viver com elas. E tenho rancor. Rancor por tudo o que me fizeram sentir. Por tudo o que me tiraram sem sequer perceberem. Por todas as vezes em que me deixaram sozinha com dores que não cresceram em mim, mas que fui eu que tive de aprender a carregar. E eu sei que dizem que o rancor pesa. Mas ninguém fala sobre o peso de fingir que não fomos magoados. Ninguém fala sobre a violência de ter de perdoar quando ainda estamos a tentar sobreviver àquilo que nos fizeram. Eu não estou zangada com o mundo! Eu estou cansada de doer.
Cansada de sentir falta. Cansada de guardar. Cansada de tentar ser forte. Cansada de ser a pessoa que aguenta.
Porque ninguém pergunta à pessoa forte quantas vezes ela pensou em desistir de aguentar. Ninguém pergunta quantas vezes ela quis apenas cair no chão e que alguém a segurasse. E eu queria isso. Não sei de quem. Não sei quando. Não sei como. Mas queria que, pelo menos uma vez, alguém olhasse para mim e percebesse. Sem eu ter de explicar. Sem eu ter de implorar. Sem eu ter de gritar. Porque a verdade é que este texto é um grito. Um grito que não tem destinatário. Um pedido de socorro que não sabe quem chamar. Uma mão estendida para o vazio. E talvez seja isso que mais assusta. É sentir que estou a afundar e nem sequer saber para onde nadar. Eu não sei o que preciso. Só sei que dói. Dói tanto que, às vezes, parece que o meu próprio coração se cansou de bater por coisas que nunca voltaram. Há pessoas que não morrem. Mas… deixam-nos a viver como se uma parte de nós tivesse sido enterrada com elas. E há coisas que não acabam. Apenas deixam de ser ditas. Ficam cá dentro.
Transformam-se em silêncio. Em distância. Em noites mal dormidas. Em saudades que fingimos não sentir. Em lágrimas que engolimos para ninguém perceber. Eu estou perdida. E, pela primeira vez, talvez não queira que me digam para encontrar o caminho. Talvez eu só queira sentar-me no meio desta confusão toda e admitir. Eu estou cansada. Cansada de lutar contra coisas que vivem dentro de mim. Cansada de tentar esquecer quem ainda mora em partes do meu coração. Cansada de sentir falta de quem já não me procura. Cansada de carregar mágoas que nunca tive oportunidade de pousar. Cansada de ser forte quando, na verdade, só queria poder ser fraca sem que isso fosse usado contra mim. Se alguém ouvir este grito… Não me perguntes porque estou assim. Não me peças para explicar.
Não me digas que vai passar.
Apenas fica. Porque há momentos em que uma pessoa não precisa de respostas. Precisa apenas de não se sentir sozinha enquanto o mundo inteiro parece estar a desabar dentro dela. Eu não quero desaparecer. Mas há dias em que gostava que esta dor desaparecesse de mim. Que levasse consigo as saudades. A mágoa. O rancor. As perguntas. As pessoas que ainda vivem em mim sem terem ficado. Queria acordar um dia e sentir silêncio. Mas não aquele silêncio vazio.
Um silêncio de paz. Porque dentro de mim há demasiado barulho. E eu já não sei quanto tempo mais consigo fingir que não. Este não é um texto para alguém. Não é uma mensagem para uma pessoa específica. É apenas o meu coração, finalmente, a admitir aquilo que tenho tentado esconder. Eu estou a gritar por dentro. E o mais doloroso… É que nem eu sei quem espero, que me ouça.


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