Entre quem eu era e o que me tornei.

Há uma fome que não se sacia com comida. Uma fome que nasce no meu peito, cresce nos meus ossos e se instala como um animal indomável dentro de mim. É a fome de querer. Querer tanto que chega a doer. Não é um desejo leve, passageiro. É bruto, é carnívoro. Mastiga-me por dentro enquanto olho para aquilo que parece sempre um passo além do meu alcance. No início, ainda há entusiasmo. Há força nos meus músculos, há brilho nos meus olhos. Acredito que basta insistir, que a persistência é uma lâmina afiada capaz de cortar qualquer obstáculo. Mas os dias passam, e os obstáculos não cedem, eles crescem. Tornam-se muralhas, tornam-se monstros, tornam-se versões ampliadas de tudo aquilo que me diz “não”. E eu continuo. Continuo porque desistir parece uma morte mais rápida, mas continuar… Continuar é uma morte lenta. Cada tentativa falhada arranca um pedaço de mim. Cada recuo imposto desgasta-me mais do que qualquer corrida. Começo a sentir o peso não só no corpo, mas naquilo que eu era. Aquela versão minha que acreditava sem hesitar começa a desaparecer. E no lugar dela nasce algo diferente. Mais duro, mais cansado, mais silencioso. Há dias em que já não sei se ainda quero pelo mesmo motivo ou se é só o hábito da luta que me mantém em movimento. Como uma predadora ferida que já nem sabe se caça por necessidade ou por instinto. Porque parar significaria encarar o vazio, e o vazio também devora.
O mais cruel não é o fracasso em si. É o desgaste. É perceber que o querer tanto vai-me transformando, vai-me moldando numa versão de mim que já não reconheço completamente. É sentir que, aos poucos, algo dentro de mim vai morrendo. Não de uma vez, mas em pequenas mordidas invisíveis. E mesmo assim, há uma parte de mim que resiste. Teimosa. Quase irracional. Uma parte que ainda acredita, ou talvez apenas se recuse a aceitar que tudo isto foi em vão. Porque no fundo, o verdadeiro conflito não é entre mim e os obstáculos.
É entre quem eu era quando comecei… e quem me estou a tornar para continuar.


Comentários

Deixe um comentário